Irmã
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Minha irmã sempre foi muito impulsiva e buscava uma autonomia quase absoluta sobre a própria vida. Qualquer conselho ou advertência era visto por ela como um ataque pessoal, uma tentativa de diminuí-la. Fugia de casa, brigava com a minha mãe, falava mal dela e chegava a chamá-la só pelo nome. Quando queria algo e era contrariada — pelos meus pais ou por qualquer outra pessoa — entrava em desespero. Levava uma vida bastante inconsequente: ia a muitas festas, voltava tarde e teve dois filhos com pais ausentes — ambos autistas. (O "pai" é o principal culpado, né?! Faz e corre.)
Ela criou meu sobrinho numa mistura de tapas e beijos. Ama muito os filhos, mas não tolerava desobediência. Se mandava ele vir para estourar suas espinhas, ele tinha que ir; se queria jogar videogame com ele, ele tinha que aceitar; se estava irritado, ele era obrigado até a sorrir. Crescendo assim, sentindo-se impotente e forçado desde cedo, meu sobrinho acabou desenvolvendo um temperamento difícil, intensificado por uma rigidez cognitiva marcante. Quando se irrita, reage de forma muito agressiva: xinga, ameaça, responde com extrema grosseria, mesmo quando todos tentam acalmá-lo.
E como minha irmã lidava com isso?
Com palmadas seguidas de arrependimento.
Às vezes, tentava transformar a situação em brincadeira, pedindo que ele risse — o que, na prática, irrita qualquer um.
Outras vezes, o forçava a ir para o quarto, a ficar sentado, em silêncio, ou até a fazer algo de que gosta, mas sem vontade naquele momento.
Felizmente, ela vem mudando. Está mais paciente e tem respeitado mais o filho. Ainda assim, de vez em quando recai em velhos padrões, o que é frustrante. O jeito dela brincar continua sendo, muitas vezes, provocando, irritando, até batendo, o que facilmente escala. Mesmo assim, é inegável o quanto ela evoluiu e o quanto ama a família. Com quem está fora desse círculo, porém, ainda demonstra bastante rancor.
Minha mãe, por sua vez, foi mais rígida com ela do que foi comigo e com meu irmão, — algo de que minha irmã sempre reclama — não sei dizer se isso foi uma resposta ao comportamento dela ou se houve outros fatores. O fato é que minha mãe não demonstra afeto por ela da mesma forma que demonstra pelos demais. Não me entenda mal: ela faz de tudo pela filha, mas também a critica de maneira dura sempre que pode.
Sinto que minha mãe precisaria ser mais afetuosa, acolher melhor o carinho que recebe e diminuir o tom das críticas. Já minha irmã poderia estabelecer combinados mais claros sobre quando minha mãe pode ajudar com os filhos e, principalmente, buscar apoio profissional. Além disso, seria importante aprender a brincar sem agressividade, a não gritar e a respeitar quando alguém diz “não”.
A energia dela tende a cair muito facilmente, mesmo quando os meninos não estão em casa e eu compreendo, não é fácil. E o padrasto é um cavalo.
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