Conflitos de amizade

Minha amizade com Vovô é levemente conturbada, pois ele, sempre que julga necessário, tenta me analisar psicologicamente e sugerir correções de comportamento, o que, por si só, não é um problema. Eu aceito. O maior problema foi um acontecimento recente, no qual fui invalidado, desqualificado, humilhado e xingado. Ao buscar o suporte dele no privado, recebi mais correções. Segundo ele, se me afetei, foi por ter necessidade de controle e previsibilidade.

Vovô nem quis ouvir sobre o ocorrido, tratando a tal “agressora” com a mesma naturalidade de sempre — mesma atenção, mesmo carinho. Disse que a achava engraçada. E só posso concordar: esse é um direito dele. Mas fiquei magoado.

Por demonstrar completa indiferença ao que me aconteceu, fui buscar suporte em outro lugar. Depois, fui informá-lo de que eu já estava melhor e também de que considerei esse suporte necessário. Então, Vovô me disse para não criar expectativas sobre ele. Querer mudar a forma como ele se comunica seria, segundo ele, uma tentativa de colocá-lo sob minha vontade. Também criticou minha saída do grupo, considerando-a imaturidade. Eu estaria fugindo ou, melhor dizendo, trocando o grupo por outro ambiente que se adequasse à minha vontade.

Não gosto de ele ter o direito de me fazer indagações passivo-agressivas. Também não gosto de estar sempre na posição de ouvinte conformado. E, quando expresso isso, a conversa novamente retorna à minha suposta necessidade de controle.

Apesar disso, Vovô tece elogios, comemora minhas conquistas e não perde a paciência de fato. Além disso, tem um passado extremamente traumático, e tento levar isso em consideração.

Não falei que ele me magoou porque, da última vez que fiz isso, Vovô simplesmente me disse que estava cansado de se moldar às expectativas alheias, que se manteria fiel à sua natureza e que não controlava como os outros se sentiriam. Em outras palavras: se me incomodei, não foi erro dele — foi questão do meu emocional.

Ele associou meu desejo por previsibilidade ao autismo, assumindo que compartilhava do mesmo “mal”. Sempre fala sobre como fico na defensiva e sobre minha rigidez. Reconheceu a própria rigidez também. Mas, poxa, ele consegue ser tão inflexível. Quando um membro expressou uma opinião esdrúxula (legalização do homicídio), baniu o rapaz, mas propôs um novo grupo — um ambiente para discussões sobre temas como esse. Eu me opus e critiquei o fato de ele instituir sozinho que a forma de tomarmos decisões seria levar ideias para votação no grupo e, em paralelo, para os administradores votarem separadamente. Ele viu isso como uma tentativa de controle, pois, segundo ele, eu deveria “perguntar para perguntar”. Concordo que reconheci como um exagero meu, motivado por uma busca de segurança e por projeções catastróficas. Mas Vovô não criticou isso; criticou o fato de eu estar, segundo ele, priorizando minha previsibilidade e controle da situação em detrimento das necessidades da comunidade como um todo.

Acho injusto que ele possa falar o que quiser sem se preocupar com como os outros se sentem, enquanto cobra dos demais uma comunicação melhor — e ele faz muito isso. Criticou o fato de eu sair por não me sentir confortável com a presença da pessoa que me fez mal, mas diz que sairia se se sentisse “controlado”.

Como devo me portar?

Acho que devo me afastar emocionalmente quando estiver vulnerável.

Nas discussões recentes, tenho simplesmente me posicionado da forma mais clara possível sobre minhas intenções e pedido que o foco não se volte para mim, mas para o ponto que levantei. Ainda assim, tenho um medo.

Anteriormente, fui chamado de sonso, mas não sei se sou assim. Naquele caso, tenho certeza de que não fui, mas, com relação ao meu amigo, não sei. Procuro exercer o respeito de não voltar as palavras dele contra ele, nem atacá-lo pessoalmente — muito menos analisá-lo, pois não me acho competente para isso. No entanto, às vezes sinto vontade de evidenciar os erros dele e até de provocar. Ainda assim, acredito que tenho bom autocontrole e humildade. 

Ainda assim, a impressão que passo, é de alguém teimoso. 

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